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Só há uma maneira de pintar para todos: é pintar sem pensar em
ninguém, pintar para o que existe em nós de essencial e
profundo.
Essa máxima se aplica a Layon. O artista passa
ao largo das experimentações contemporâneas na qual muitos
artistas têm mergulhado. Ocupado consigo mesmo, prossegue sua
viagem de descoberta de seus próprios meios. Não que outros
artistas não inspirem sua palheta. Pelo contrário, visitam suas
telas ora os nevoeiros de Monet, ora a luz delicada de Rembrandt,
mas sem deixar Layon de se lançar na busca dos seus próprios
resultados. Ele sabe que, tanto nas obras quanto na vida, os
homens devem ser fortemente individuais, pois somente quando eles
são mais eles mesmos é que realizam mais amplamente uma arte
universal.
Sua arte não se dobra aos encantos do momento,
pois tem par si que a sina do artista é encontrar na sua forma
pessoal de criação o seu próprio Ser. Sua obra não pode ser
outra coisa senão o que arrancou de si mesmo, de sua própria
essência. Por isso, para o artista só existe uma forma de pintar
a natureza e o mundo: revelando-os tal qual são, poeticamente.
Só uma coisa interessa a Layon em sua
atividade artística: livrar a vida (esse espetáculo sem causa)
do nada e da esterilidade. Devolver ao mundo a sua condição
perdida, condição poética que é redescoberta e iluminada pela
arte, sabendo que é a obra de arte que torna-a perene,
indestrutível. Como dizia o escritor Marcel Proust “um quadro
é uma espécie de aparição de um recanto misterioso do mundo,
do qual só podemos conhecer através das telas do artista”.
Transpondo uma paisagem para a tela, Layon
detém o movimento das horas. A paisagem, em seu aspecto mais
significativo, pode agora, para sempre, ser assimilada pelo nosso
espírito. Nesse sentido, sua arte espiritualiza a matéria. A
partir daí, a aparição da paisagem em cada uma de suas telas
provoca o desejo de mergulhar no sonho e abandonar a realidade,
deixando-nos entrar nos recintos mágicos das calçadas, do
casario, das névoas, das montanhas e árvores. As coisas, ao
perderem seu aspecto de coisa, são penetradas por amplos
movimentos de luz e cor. O artista realiza o milagre de tornar
cada pequeno facho de |
luz, a
neblina, cada fresca manhã e as folhas que dançam em sua
mobilidade, num imenso edifício de força viva, que transpira
numa permanência indefinida. Provamos de uma alegria imensa que,
à simples lembrança de suas telas, sempre retorna. Pois, como
dizia o poeta Keats, “uma coisa bela torna-se uma alegria para
sempre”.
Contra a influência anestésica do hábito,
seus quadros evocam uma impressão de encantamento poético que
renova o mundo aos nossos olhos e nossos olhos à luz da criação
artística. Com sua arte vemos através de um vitral iluminado, no
qual são realçados os detalhes mais insignificantes, nos
forçando a mergulhar dentro de um mundo onde cada pormenor é um
cristal resplandecente que brilha mais que a vida.
Layon sabe que para criar esse mundo através
da arte, com sua determinada força poética, é preciso ternura e
íntima afinidade com o que se está retratando. Uma intimidade
que pressupõe um conhecimento especial dos vários elementos que
povoam suas telas: as aparições suaves da bruma, os pesados
casarões e as igrejas coloniais, a iluminação dos lampiões sob
a chuva. Elementos estes que o artista não só conhece como
ninguém, mas que, a cada tela, torna solene. Layon acaba por
encontrar sua justificativa nas palavras do poeta Mallarmé, que
dizia que “o papel do artista é solenizar a vida”.
Depois de mergulhar nos seus quadros sabemos
que um mundo deserto não é aquele que a arte não fecundou, mas
aquele que, fecundado pelas obras de arte, não sabe apreciá-las.
O deserto seria, então, a soma da incompreensão com o
desinteresse.
Mas quem sabe um dia perceberemos que o
mistério de um quadro é o mesmo mistério da natureza
palpitante. Aí, e somente aí, saberemos que o momento com a obra
de arte, como dizia Proust, “é o momento em que perdemos o pé,
em que não estamos mais em terra firme, em que o barco é jogado
ao mar e já navega, em que as palavras tornam-se canto, e essa
palpitação visível se mantém para sempre na tela imóvel”.
É o que cada nova tela de Layon parece nos
repetir incessantemente. |